Anestesia

 Chega uma hora do sofrimento em que dói tanto, mas tanto, que já não existe mais o que fazer com aquela dor.

Então o corpo, talvez para se proteger, dá a volta.

E para de sentir.

Não porque a dor tenha ido embora. Ela continua ali, espalhada por lugares onde eu consigo encontrá-la: nos dentes trincados, no estômago que dói a ponto de fazer parar de comer, nos olhos que insistem em chorar sem que eu perceba, sem que eu esteja pensando em nada.

É como uma anestesia geral.

A dor existe, mas já não alcança tudo.

E, de alguma forma, o cérebro parece aprender a me proteger dela. Interrompe o caminho dos pensamentos, fecha algumas portas, silencia as perguntas.

Por que dói?
De onde veio?
Quando começou?

Por enquanto, não importa.

Talvez exista um limite para aquilo que a gente consegue sentir de uma vez.

E, quando chegamos lá, o corpo simplesmente faz o que pode.

Desliga as luzes.

Deixa a dor acesa, mas impede que a gente olhe diretamente para ela.

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